Brasil, 1600

Um retrato cartográfico do Estado do Brasil ao fim do primeiro século — as vilas, as capitanias, os povos, o açúcar e o sertão.

Nota de método: a costa e os rios usam geografia real (Natural Earth); todo o conteúdo histórico — fundações, capitanias, povos, números — vem de fontes primárias do século XVI e da historiografia de referência, citadas item a item. O que é estimativa está marcado como estimativa.

O mapa

Clique em qualquer vila, povo, faixa de capitania ou símbolo de engenho para ver o registro histórico e a fonte. Use a roda do mouse para aproximar e arraste para navegar.

Camadas
Carta em projeção de Mercator (1569) · costa segundo Natural Earth

O Brasil em 1600 — panorama

Cem anos depois de Cabral, a colônia portuguesa era uma fita litorânea de vilas entre Natal e Cananeia. Tudo o mais — Amazônia, sertões, sul — permanecia terra indígena.

Política: a União Ibérica

Desde 1580 Portugal e seu império pertenciam à monarquia hispânica. Em 1600 reinava Filipe III de Espanha (II de Portugal), coroado em 1598. O Brasil manteve leis e administração portuguesas, conforme jurado nas Cortes de Tomar (1581).

O Estado do Brasil era governado de Salvador pelo governador-geral D. Francisco de Sousa (1591–1602), que naqueles anos se entusiasmava com supostas minas de prata no sertão de São Vicente.

Atas das Cortes de Tomar (1581); ABREU, Capítulos de História Colonial (1907); SERRÃO, História de Portugal, v. IV.

Economia: o império do açúcar

O Brasil de 1600 era o maior produtor mundial de açúcar. Dos ~60 engenhos contados por Gândavo (c. 1570) passou-se a 115–130 em 1583 (Cardim) e a 192 em 1612 — Pernambuco e Bahia à frente.

O pau-brasil seguia como monopólio régio em declínio relativo; o gado começava a subir o vale do São Francisco; e o tráfico atlântico já havia desembarcado cerca de 30 mil africanos escravizados, que substituíam progressivamente o braço indígena nos engenhos.

GÂNDAVO (c. 1570); CARDIM (1583); SCHWARTZ, Segredos Internos (1985); slavevoyages.org.

Sociedade: três mundos em choque

Uns 100 mil habitantes viviam nos núcleos coloniais (estimativa IBGE): reinóis, mazombos, mamelucos, africanos e indígenas aldeados. Nas vilas mandavam senhores de engenho e câmaras municipais.

A catástrofe demográfica indígena era o fato social dominante: as epidemias de 1562–63 mataram dezenas de milhares só na Bahia, e a escravização — apesar da lei restritiva de 1570 — continuava pelas brechas das "guerras justas".

IBGE, Brasil: 500 anos de povoamento (2000); cartas jesuítas 1562–63; HEMMING, Red Gold (1978); lei de 20/3/1570.

Religião: jesuítas e a Visitação

A Companhia de Jesus, no Brasil desde 1549, mantinha colégios em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo e dezenas de aldeamentos. José de Anchieta morrera em 1597 em Reritiba (ES).

O bispado da Bahia (1551) era o único da colônia. A Inquisição nunca instalou tribunal no Brasil, mas a Primeira Visitação do Santo Ofício (1591–95) acabara de passar pela Bahia e por Pernambuco, deixando processos contra cristãos-novos, bígamos e praticantes da "santidade" indígena.

Livros da Primeira Visitação (ed. 1925); necrológios jesuítas; bula Super specula (1551).

Guerra e fronteira

A década de 1590 foi de expansão para o norte: Sergipe conquistado (1590), paz com os potiguaras e fundação de Natal (1599). No sul da Bahia, porém, os aimorés mantinham Ilhéus e Porto Seguro arruinadas.

Corsários ingleses e franceses rondavam a costa — Lancaster saqueara o Recife em 1595. Os holandeses, futuros invasores, em 1600 ainda eram apenas compradores e refinadores do açúcar brasileiro na Europa.

HAKLUYT (1599–1600); SOARES DE SOUSA (1587); CASCUDO (1947); MELLO, Tempo dos Flamengos.

O sertão indígena

O mapa colonial enganava: a presença portuguesa raramente passava de 50 km da praia. A Amazônia inteira, o Planalto Central, o Pantanal e o Sul eram território de centenas de povos — tupis no litoral remanescente, "tapuias" (sobretudo povos jê) no interior, guaranis no sul.

De São Paulo, vila mameluca de ~1.500 almas, partiam as primeiras entradas atrás de indígenas e metais — o embrião das bandeiras do século seguinte.

NIMUENDAJÚ, Mapa Etno-Histórico (1944/IBGE 1981); MONTEIRO, Negros da Terra (1994); CUNHA, História dos Índios no Brasil (1992).

Números de 1600

Não existia censo em 1600 — todo número é reconstituição. A tabela traz as estimativas aceitas pela historiografia, com a fonte de cada uma.

Grupo / indicadorValorFonte

Como ler: "documentado" = registrado em fonte primária de época (carta, foral, auto de fundação, crônica); "estimativa" = reconstituição acadêmica moderna; "controverso" = sem consenso na historiografia. Essa marcação aparece também em cada item do mapa.

Cronologia do século (1500–1600)

Os marcos que explicam o mapa — cada um com sua fonte.

O que ainda não existia

Anacronismos comuns em "mapas do Brasil colonial" — e por que ficaram fora desta carta.

Fontes e validação

Tudo neste mapa pode ser conferido. As fontes primárias estão digitalizadas e em domínio público; as obras de referência são padrão nos cursos de História do Brasil.

Fontes primárias (séc. XVI–XVII)

  • Carta de Pero Vaz de Caminha (1500) — original no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, digitalizado em digitarq.arquivos.pt.
  • STADEN, Hans. Warhaftige Historia (Marburgo, 1557) — trad. bras. "Duas Viagens ao Brasil".
  • LÉRY, Jean de. Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil (1578).
  • GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil (c. 1570) e História da Província Santa Cruz (1576) — em brasiliana.usp.br.
  • SOARES DE SOUSA, Gabriel. Tratado Descritivo do Brasil em 1587o retrato mais completo da colônia; ed. Varnhagen (1851) em domínio público.
  • CARDIM, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil (1583–1601) — contagem de engenhos e descrição dos povos.
  • Sumário das Armadas que se fizeram… na conquista do Rio Paraíba (c. 1587).
  • Cartas jesuíticas (Nóbrega, Anchieta e outros, 1549–97) — ed. Academia Brasileira de Letras.
  • Mapa das capitanias de Luís Teixeira (c. 1574) — Biblioteca da Ajuda, Lisboa; base das faixas desenhadas aqui.
  • Livros da Primeira Visitação do Santo Ofício (1591–95) — ed. Capistrano de Abreu (1925).

Historiografia de referência

  • ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1907) — domínio público.
  • VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil (1854–57).
  • SCHWARTZ, Stuart. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial (1985).
  • HEMMING, John. Red Gold: the Conquest of the Brazilian Indians (1978).
  • MONTEIRO, John. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (1994).
  • CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil (1992).
  • FAUSTO, Boris. História do Brasil (2006), cap. 1–2.
  • CINTRA, Jorge Pimentel. Reconstruindo o mapa das capitanias hereditárias (Anais do Museu Paulista, 2013) e A linha de Tordesilhas (Revista USP, 2012).
  • NIMUENDAJÚ, Curt. Mapa Etno-Histórico (1944; ed. IBGE 1981) — localização dos povos indígenas.
  • IBGE. Brasil: 500 anos de povoamento (2000) — séries demográficas em brasil500anos.ibge.gov.br.
  • Trans-Atlantic Slave Trade Databasedesembarques estimados em slavevoyages.org.
  • Natural Earth — geografia (costa e rios) em naturalearthdata.com.

Limites deste mapa (honestidade cartográfica)

1. A costa e os rios são os de hoje (Natural Earth). Um mapa "como se desenhava em 1600" seria deliberadamente impreciso; preferimos geografia real + informação de época, como fazem os atlas históricos.

2. As faixas de capitanias seguem a reconstituição de Cintra (2013) sobre o mapa de Luís Teixeira (c. 1574). Os limites originais ("tantas léguas de costa") nunca foram demarcados com precisão no terreno.

3. As posições dos povos indígenas são indicativas (Nimuendajú/Hemming): territórios não tinham fronteiras fixas e o século XVI foi de deslocamentos massivos por guerra, fuga e epidemia.

4. A linha de Tordesilhas em 46°37′O é a convenção historiográfica — no século XVI ninguém sabia medir longitude com essa precisão, e cada cosmógrafo a traçava em um lugar.